segunda-feira, 28 de maio de 2012

First reflections

29 anos e meio, fosse lá o que isso quisesse dizer.
O rosto no espelho já não era tão jovem, embora nunca tivesse sido notavelmente bonito. De qualquer forma, estava envelhecendo; já notava os sinais.
Pessoalmente, ela tentava crer que sua vida havia servido a algum propósito até então; que não era tão inútil quanto se sentia na maior parte do tempo. Na prática: era. Tudo o que cercava sua vida era pura e simplesmente patético: seu trabalho, seu relacionamento, seus anseios... Ela também sabia disso.
Odiava o mundo em que vivia, a crueldade sem limites, a falta de caráter, as expectativas, as decepções, as mentiras e, acima de tudo, odiava a si mesma e a maldita incapacidade de fazer qualquer coisa a respeito. Sentia tudo, via tudo, mas tudo não passava de lágrimas e esperanças vazias.
Dentro de si ela era diferente, mas é claro que isso não tornava coisa alguma mais fácil ou tolerável.
Aquela era apenas outra tarde de inverno cultivada cuidadosamente: o tradicional vento frio da cidade contrastando com o sol impecavelmente posicionado, impedindo o sucesso de qualquer tentativa de estabelecer um certo conforto enquanto aguardava o ônibus cercada pelo pequeno exército de pessoas que se dirigiam para o trabalho naquela manhã.
As opções limitavam-se ao frio incômodo – que seria, provavelmente, seguido por um resfriado que duraria dias e daria cabo de muitos rolos de papel higiênico – ou o calor suarento do confinamento do moletom.
Ela sentia calor, e essa era apenas mais uma das coisas que detestava, de uma lista longa... Especialmente naquele dia.
Ela ouvia as vozes novamente. Via o caos tomando forma e sabia o que viria a seguir.
A vida toda sempre houve mais de uma. Sempre houve seus outros “eus”, suas outras pequenas e dominadoras partes lutando entre si por controle, atenção e por vingança.
Todas sempre estiveram lá à espreita e a verdade é que nenhuma sentia qualquer apreço por ela: a parte mais inútil, mais covarde, mais vazia e desprovida de propósito. Ainda assim, era ela quem mantinha a chave. Todas as chaves.
Ela ERA a chave.
A maldita não servia para absolutamente nada além de, literalmente, ficar no caminho. Restava a elas esperar pelo momento em que fracassaria e, dadas as probabilidades, não demoraria muito.
Tudo uma questão de tempo; coisa que ela não tinha. Também não tem vida! Diriam algumas de suas pequenas frações confinadas e condenadas ao anonimato.
Por mais de uma vez ouviu dizer que tinha problemas para manter relacionamentos. Verdade seja dita: não era novidade nenhuma. Simplesmente não conseguia confiar em ninguém e também não via razão para isso. Sofria sempre que tentava. Num estalar de dedos acabaria descobrindo alguma mentira, meia verdade, omissão, traição ou outra coisa qualquer que faria desmoronar tudo aquilo sobre o que permitiu construir seus sentimentos. Bastaria isso para que, mais uma vez, tivesse que se contentar em recolher os pedaços. Ela finalmente havia se cansado.
Decidiu mudar tudo aquilo que não gostava em si, a começar pela crença. Ela tinha fé nas pessoas. Tinha certeza que um dia encontraria alguém como ela e já era passado o tempo de perceber que essas eram esperanças vãs. Não haveria nunca outro “eu”. Pelo menos, não um que caminhasse em outro corpo e se sentisse tão infinitamente desconectado, como ela se sentia.

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